Reflexões

Precisamos falar sobre: aceitação

Tenho uma certa admiração por quem diz lembrar cada detalhe de todos os momentos importantes.

Por exemplo, do nascimento dos meus filhos lembro que chorei o tempo todo desde quando o médico falou que ele iria nascer até quando ele foi colocado nos meus braços, que as minhas coxas doíam muito e senti muito frio e que a primeira coisa que ela fez ao sair da minha barriga foi chupar o meu nariz. Do meu casamento lembro que, se não fosse o meu sogro, estaria até agora parada na escadaria da igreja.

Sou assim. Lembro apenas flashes de momentos importantes.

O último momento desses foi no consultório de uma médica. Eu disse que sentia dores constantes, que levantar da cama era um sacrifício e o cansaço desesperador. Disse a ela que eu chegava a duvidar de mim, pois fiz tantos exames que perdi a conta e todos eles indicaram resultados normais. Perguntei a ela: todas as pessoas se sentem assim? Estou sensível demais, exagerada ou é preguiça?

Receber o diagnóstico de uma doença invisível é um alívio e um fardo. Dar um nome ao que te aflige é importante na busca de soluções e alternativas, bem como facilita o trabalho de encontrar outras pessoas como mesmo problema. Confesso que essa última eu deixei de lado, já que me propus ter uma atitude positiva e proativa, sem me queixar a quem queira ouvir – coisa muito comum em comunidades do tipo.

Não julgo, mas cada um sabe onde o calo aperta. São pouco mais de quatro meses de diagnóstico e tratamento e estou muito melhor. Minto se disser que não sinto mais dor, porém essas não são mais debilitantes. Desde o diagnóstico tive apenas uma crise causada por tensão e stress, que me deixou prostrada e me fez tomar os medicamentos mais fortes.

Uma das coisas que lembro da consulta foi a médica me dizer que minha melhora dependia unicamente da minha adesão ao tratamento e que alimentação, exercícios e utilização dos medicamentos seriam essenciais, especialmente nessa primeira fase. É o que tenho feito e, do meu ponto de vista, os resultados são surpreendentes.

Vamos ver como se desenrola essa nova etapa da minha vida. Posso dizer que é de muito aprendizado e aceitação, mas também de luta para que não se instale uma postura vitimista, como vejo bastante por aí. Não é fácil. Virei um conjunto de síndromes que limitam minha alimentação, impedem que eu saia de um compromisso a outro apenas trocando a bolsa e o sapato.

Aprendi a dizer não e a escolher os eventos que participo. O mais incrível é que isso mostrou um lado das pessoas que eu realmente não conhecia e revelou a compaixão de quem eu menos esperava. Algumas pessoas fazem o impossível para encontrar algo que eu possa comer, preparar um local para que eu descanse pois fazem questão da minha presença ou simplesmente vem à minha casa treinar comigo para que eu não deixe de me exercitar.

Meu objetivo é que, no futuro, os flashes dessa fase sejam apenas do acolhimento que recebi da minha família e dos amigos. Como disse nosso querido Drummond: a dor é inevitável, o sofrimento opcional.

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