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Histórias de uma Infiel

{ Postado em jan 14 2010 por Maysa }

infielInfiel, autobiografia de Ayaan Hirsi Ali, deixa nossa cabeça dando voltas. A história poderia passar tranquilamente por um romance. Era uma vez uma mocinha que esteve diversas vezes às portas da morte[bb] e sofreu violências irreparáveis no corpo, mas teve coragem de fugir, criar um destino novo para si e se tornar uma das 100 pessoas de maior influência no mundo. Fim…

Um dos motivos que eu gosto deste tipo de leitura (as autobiografias) é que nos dá a oportunidade de conhecer a situação de quem está “por dentro”, ou seja, a vivência é real, sentida, sofrida. Nesse “conto” todos teriam vivido felizes para sempre se não fosse o motivo pelo qual ela fugiu: a profunda opressão em que vivia apenas pelo fato de ser mulher[bb]. Para quem acha que é exagero, Theo Van Gogh – cineasta amigo de Ayaan e sobrinho-neto do pintor – foi morto porque filmou o vídeo abaixo, cujo roteiro foi escrito por ela na tentativa de mostrar às pessoas que seu discurso não era apenas uma tentativa tosca de se integrar à sociedade ocidental.

Em casa é fácil ser feminista; marido resolver ter um ataque machista eu, sei lá, gasto o dinheiro? Grito mais alto? Faço greve de sexo? Explico por A + B que a atitude é inaceitável? Não importa, o ponto é que eu posso fazer o que me aprouver, desde a mais madura das altercações até a mais vil vingança que o máximo que ele pode fazer é agir no mesmo nível; não pode me bater, apedrejar ou assassinar. É seguro, confortável[bb] e de certa forma pacífico. Agora experimente ser parte de um clã, muçulmana, negra, exilada no exterior e filha de um revolucionário (cá entre nós, esse último lhe deu apenas os genes do inconformismo). É minha amiga, tudo é mais bonito aqui do nosso sofá.

O livro conta sua história dividida em duas partes. A infância[bb] e adolescência sob a influência da avó, dividida entre os costumes tribais e o islamismo, e da mãe, outrora corajosa e cheia de vitalidade, mas que foi subjugada pelas dificuldades de criar sozinha os filhos em uma sociedade na qual era pouco mais que um animal. A segunda parte começa quando Ayaan foge de um casamento arranjado e nesse ponto acontece o seu renascimento. Ao deixar os questionamentos aflorarem livremente – e com eles as respostas nem sempre confortáveis – ela cria uma nova vida para si.

Talvez por isso eu não me importe com o tom exagerado e ingênuo com o qual a autora descreve as diferenças entre o Ocidente (salvador e iluminado) e o Islã (raiz de todo o mal), quem sabe se eu estivesse na mesma situação visse as coisas da mesma maneira? O importante é que ela não ficou deslumbrada para sempre, ao contrário, entrevistas e reportagens me passam a impressão que ela tem um talento único para enxergar as contradições nos pretensiosos discursos de quem se julga comprometido com as liberdades individuais, mas que apenas não tem vivência[bb] suficiente para falar com propriedade.

Super recomendo.


2 Respostas to “Histórias de uma Infiel”

  1. Oi amiga! Interessante, eu quero ler. Me lembrou a história de A Cidade do Sol, só que esse é de fato um conto, não uma história real.

    [Reply]

    Maysa Reply:

    Apareceu a Margarida! =)

    Só vir buscar, ué! Aproveita e me empresta “A Cidade do Sol”!

    #beijomeliga

    [Reply]

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