Histórias de uma Infiel
Infiel, autobiografia de Ayaan Hirsi Ali, deixa nossa cabeça dando voltas. A história poderia passar tranquilamente por um romance. Era uma vez uma mocinha que esteve diversas vezes às portas da morte e sofreu violências irreparáveis no corpo, mas teve coragem de fugir, criar um destino novo para si e se tornar uma das 100 pessoas de maior influência no mundo. Fim…
Um dos motivos que eu gosto deste tipo de leitura (as autobiografias) é que nos dá a oportunidade de conhecer a situação de quem está “por dentro”, ou seja, a vivência é real, sentida, sofrida. Nesse “conto” todos teriam vivido felizes para sempre se não fosse o motivo pelo qual ela fugiu: a profunda opressão em que vivia apenas pelo fato de ser mulher. Para quem acha que é exagero, Theo Van Gogh – cineasta amigo de Ayaan e sobrinho-neto do pintor – foi morto porque filmou o vídeo abaixo, cujo roteiro foi escrito por ela na tentativa de mostrar às pessoas que seu discurso não era apenas uma tentativa tosca de se integrar à sociedade ocidental.
Em casa é fácil ser feminista; marido resolver ter um ataque machista eu, sei lá, gasto o dinheiro? Grito mais alto? Faço greve de sexo? Explico por A + B que a atitude é inaceitável? Não importa, o ponto é que eu posso fazer o que me aprouver, desde a mais madura das altercações até a mais vil vingança que o máximo que ele pode fazer é agir no mesmo nível; não pode me bater, apedrejar ou assassinar. É seguro, confortável e de certa forma pacífico. Agora experimente ser parte de um clã, muçulmana, negra, exilada no exterior e filha de um revolucionário (cá entre nós, esse último lhe deu apenas os genes do inconformismo). É minha amiga, tudo é mais bonito aqui do nosso sofá.
O livro conta sua história dividida em duas partes. A infância e adolescência sob a influência da avó, dividida entre os costumes tribais e o islamismo, e da mãe, outrora corajosa e cheia de vitalidade, mas que foi subjugada pelas dificuldades de criar sozinha os filhos em uma sociedade na qual era pouco mais que um animal. A segunda parte começa quando Ayaan foge de um casamento arranjado e nesse ponto acontece o seu renascimento. Ao deixar os questionamentos aflorarem livremente – e com eles as respostas nem sempre confortáveis – ela cria uma nova vida para si.
Talvez por isso eu não me importe com o tom exagerado e ingênuo com o qual a autora descreve as diferenças entre o Ocidente (salvador e iluminado) e o Islã (raiz de todo o mal), quem sabe se eu estivesse na mesma situação visse as coisas da mesma maneira? O importante é que ela não ficou deslumbrada para sempre, ao contrário, entrevistas e reportagens me passam a impressão que ela tem um talento único para enxergar as contradições nos pretensiosos discursos de quem se julga comprometido com as liberdades individuais, mas que apenas não tem vivência suficiente para falar com propriedade.
Super recomendo.


Maysa, Brasília, Distrito Federal, Brasil, América do Sul, Hemisfério Sul, Planeta Terra (a maior parte do tempo), Universo. Mulher, mãe, esposa, filha, nora, cunhada, neta, tia, amiga, irmã, cozinheira, leitora, carona, scrapper, navegadora. |
Oi amiga! Interessante, eu quero ler. Me lembrou a história de A Cidade do Sol, só que esse é de fato um conto, não uma história real.
[Reply]
Maysa Reply:
janeiro 22nd, 2010 at 11:20 am
Apareceu a Margarida! =)
Só vir buscar, ué! Aproveita e me empresta “A Cidade do Sol”!
#beijomeliga
[Reply]