Partiu…

Quando me vi grávida da Helena o meu mundo caiu. Antes do exame já tinha certeza que era uma menina e eu nunca soube lidar com mulheres, não confiava nelas. Na época participava de uma lista de discussão sobre partos e devo ter falado alguma coisa porque recebi muitos e-mails nesse dia e um deles dizia pra eu ficar calma que uma pessoa iria me ligar.
A primeira vez que ela me ligou eu estava voltando do shopping e maldizendo o fato de só ter percebido que perdi minha carteira de identidade na estação do metrô e nem f0d3nd0 iria voltar na loja onde tinha comprado a minha primeira roupa especial pr’aquela gravidez (uma camiseta estampada com o Tom e o Jerry que tenho até hoje) e em voltar depois pra comprar uma outra camiseta preta… Pensava também em como o dia estava bonito e foi muita sorte ter descoberto a gravidez apenas em outubro, quando ainda não chove muito e eu poderia caminhar, mas também estava cansada e foi devaneando assim que eu vi que não conhecia aquele número, mas imediatamente imaginei que só poderia ser ela.
A gente marcou de se encontrar alguns dias depois em outro shopping. Eu estava ansiosa porque ela era a única pessoa nessa cidade que iria me entender e muito do que eu planejava pra essa gravidez iria depender dessa nossa conversa. Iria ser fácil me encontrar: era a terceira vez, a barriga cresce logo e é muito fácil localizar uma buchuda com ares de perdida procurando uma pessoa que não conhece. Elevador lotado, eu decidi subir de escada e ela estava lá em cima, só podia ser ela. A gente riu uma pra outra de reconhecimento mútuo. Sabe quando a gente gosta de uma pessoa?
Conversamos várias horas seguidas, perdi o horário do trabalho, ela quase perde a carona do marido. Naquele dia choveu, mas fazia muito calor e ela contava pra mim sobre as filhas dela que eu conheci depois e são tão lindas e inteligentes. Tinha pessoa fumando perto da gente, eu passei mal por causa daquela fumaça e ela me fez prometer que ligaria pra ela assim que chegasse em casa, mas ela não esperou e nos falamos quando Bruno já tinha me pegado.
E foram sete meses que conversamos todos os dias por telefone, e-mail, MSN. Nesses sete meses ela me ensinou que as mulheres são as melhores pessoas quando confiamos nelas, quando abrimos o coração. Ela me ensinou que ser generosa não tem nada a ver com doar dinheiro, mas se colocar a serviço de outra pessoa. Ela abriu a casa dela pra mim e me ajudou a lavar louça quando foi me visitar e minha barriga estava muito grande e eu muito cansada. Ela carregou meu filho no colo quando ele se cansava de andar, me amparou quando sentia minhas forças acabarem e me lembrou que eu ia ter uma FILHA. Me ensinou que ser mulher é um milagre.
No dia que Helena nasceu ela estava doente, muito gripada, e mesmo assim foram ela e o marido para a maternidade fazer a primeira avaliação conosco. Até eles estavam ansiosos e só aí eu percebi de verdade a importância de uma amizade. Quando a gente decidiu aguardar o trabalho de parto engrenar na casa da minha sogra, foi difícil convencê-la a ir tranquila pra casa. Ficamos a noite inteira acordados, eu e Bruno, mas de vez em quando o celular acendia e era um torpedo dela, mandando eu tomar chá de canela ou fazer um escalda pés ou simplesmente perguntando se estava tudo bem. E no dia seguinte sem que eu dissesse nada ela foi para o hospital, cuidou pra que não me faltasse nada, ficou no quarto me esperando e depois a gente não conseguia parar de falar e rir com o ridículo da minha situação. Só foi embora porque a enfermeira tocou todo mundo de lá, mas ela ainda voltou pra fazer o que fazia melhor: me animar.
Quando falei com ela há algumas semanas disse que ainda não tinha conseguido ir visitar porque os meninos estão de férias e o hospital orientou que eu não os levasse. A gente se falou bem rapidinho e ontem eu e Bruno estávamos certos que essa semana iríamos conseguir visitá-la, minha mãe vai ficar com as crianças pra mim. Só que a gente ainda não sabia que ela não estava mais lá…
Foi muita sorte minha que ela tenha aparecido para compartilhar conosco esse momento tão especial. Ela não sabe que me ensinou que tipo de mãe eu queria ser observando sua relação com as filhas, não sabe que a convivência com ela me deixou tão a vontade com minha feminilidade, nem que toda vez que olho a Helena e me vejo capaz de entender o que é ser “mãe de menina” é um pouquinho dela que tá ali também. Não sabe que toda vez que olho minha filha é uma pequenina prece que faço por ela várias vezes ao dia durante esse último ano.
E é uma pena que tenham se acabado as oportunidades de dizer isso a ela…
Imagem daqui.


Maysa, Brasília, Distrito Federal, Brasil, América do Sul, Hemisfério Sul, Planeta Terra (a maior parte do tempo), Universo. Mulher, mãe, esposa, filha, nora, cunhada, neta, tia, amiga, irmã, cozinheira, leitora, carona, scrapper, navegadora. |
Eu não consigo lembrar de um momento triste ao lado dela… Eu só consigo lembrar de uma cena: Ela rindo sempre!
Nika´s last blog ..LuluzinhaCamp BSB
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Nossa Maysa, me emocionei demais agora.
Tão triste perder um amigo, assim tão de repente, né?
Mas ainda assim, parabéns pela linda amizade, ela sim foi uma mulher em que valeu muito a pena confiar, não foi?
Beijos carinhosos pra vc!
ValGouveia´s last blog ..Vamos Brincar? Com Prêmios, Claro!
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é tudo lindo aqui…
@cristalk´s last blog ..Se eu fosse homem, invejaria as mulheres
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Myasa, que linda história amiga! Me emocionei agora…
É tão bom ter amigos assim, verdadeiros, aqueles que se doam sem pensar em nada em troca. Isso é raro nos nossos dias. Vc foi uma pessoa de muita sorte. Pena que foi tão breve, mas esteja onde estiver ela vai continuar plantando esta sementinha boa dentro de vc… bjs
Edilene´s last blog ..Kit My Boy da Val Gouveia
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Que relato emocionante, menina! Fiquei arrepiada!


Adorei seu blog!
Andrea Marcondes´s last blog .."Volte Sarah", pais biológicos querem filha de volta!
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