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O Desabafo da Mulher-Maravilha

{ Postado em jul 17 2007 por Maysa }

Não, ela não morreu – ainda – mas bem que poderia ter morrido de cansaço se não fosse a própria: em carne, ossos e (como se não bastasse!) os dons dados a ela pelos Deuses do Olimpo.

Depois de uma semana barra pesada, o fim de semana deveria ser um oásis de paz e sossego, onde os filhos brincariam contentes e o marido cuidaria do almoço. Aliás, o marido seria um caso a parte, pq ele iria fazer o almoço já com segundas intenções e a primeira providência dele seria colocar a garrafa de vinho pra gelar… WOW!

Passado o momento viagem-descontrol a vida real continua. Nela os filhos estão enjoados pq tem uma fila de dentes a nascer e um ciúme desmedido daquele irmãozinho gordinho, bonitinho e chorão que só quer ficar no colo por causa dos tais dentes. O marido? Tá caído em algum canto da casa onde não possa ouvir o barulho dos meninos, já que ele está gripado e, como todo exemplar masculino da raça humana, morto de manha e mais chorão que as crianças.

Surpreendentemente a mulher-maravilha sobreviveu ao final de semana, mesmo com a festa na madrugada de domingo quando aquele bebê bonitinho (é! Aquele mesmo dos dentes…) resolveu mamar até cair e deixou a mãe em frangalhos, um pescoço doído e outras partes que só tomam sol na gravidez esfoladas! Arre!

Pensa que acabou? Não! Ainda tem a manhã de segunda-feira.

Ah… A manhã de segunda-feira… Merecia um post todo especial, mas a mulher-maravilha não tem tempo. Então é banho rápido, o café da manhã é um copo d’água enquanto tenta dar algumas instruções pra empregada. A roupa é o uniforme básico da mulher que trabalha fora (foi a Danuza Leão que disse isso?), mais aquele casaco chiquérrimo (só pq tá frio e ele ainda é o único que cabe). Sai de casa ainda acabando de passar o protetor solar, grita um até logo já da rua, enquanto repara que precisa dar um jeitinho na frente da casa, pintar a grade.

Ninguém sabe como, mas conseguiu colocar o vidro do protetor na bolsa, ao mesmo tempo em que colocava os óculos escuros, pegava o $$ da passagem, guardava as chaves e pensava que alguém se inspirou nela ao imaginar a cena inicial do filme Bonequinha de Luxo; aliás ela mesma poderia ter gravado aquela cena, se ela não estivesse a km de distância da locação do filme, fosse mais magra, tivesse escolhido ser atriz ou fosse a própria Audrey Hepbun.

A seqüência de pensamentos intermináveis continua enquanto ela dá bom-bom dia aos vizinhos (e mais um pensamento atravessa a sua mente, de que esqueceu o almoço, mas não vai a casa buscar nem morta!), tenta equilibrar o livro que está lendo, carregar a bolsa de mão, pegar o celular pra colocar no bolso do casaco e finalmente entrar no ônibus! (Ufa! Já cansei só de narrar esses fatos!)

Dentro do ônibus ela prossegue com seus irritantes pensamentos. Dos pensamentos ela passa às orações e pede a Deus pra chegar antes da chefe. Depois se lembra que é segunda-feira e a chefe sempre chega tarde. Ela com certeza saiu no fds. Aquela ridícula deve ter ido a uma balada atrás da outra, dançado até a carne despregar do osso.

Daí a mulher-maravilha tenta se lembrar de quando foi a última vez que caiu na balada, que dançou e não se preocupou a que horas chegaria em casa. Aproveita e faz um coque no cabelo pq tá ventando e ela acabou de perceber que não tem pente na bolsa. Quase perde o ponto, desce correndo e chega atrasada, mas num horário decente ao trabalho.

Ainda no elevador, solta o coque e guarda a presilha no bolso do casaco bem a tempo da porta abrir e dar de cara com a chefe. (Óbvio! A criatura chegou mais cedo só pra ter a certeza que a “mulher-maravilha” estava atrasada.)

A chefe olha a mulher-maravilha de cima até embaixo: passa pelo cabelo perfeitamente despenteado (parece até a Gisele Bündchen! Maldita idéia de fazer um coque), o casaco que parece de revista (resgatado do baú das roupas fora de moda da mãe dela), o rosto com aquele leve rubor de quem se atrasou pq ficou embolada nos pijamas do marido (na verdade foi da correria do ponto de ônibus até o trabalho e aquele vento frio…), o tailleur preto de caimento perfeito (que já tá batido e andando sozinho), o scarpin lindo altíssimo (que ela detesta, mas usou pq não foi a manicure no fds por motivos óbvios).

Se não fosse cedo ainda e não tivesse a certeza que o shopping está fechado, a chefe juraria que a mulher-maravilha tinha voltado de uma manhã de compras, afinal ela está tão bem arrumada que não é possível que a vida dela seja igual à das outras (o que têm essas mulheres que não param de pensar? Agora é a chefe com a cabeça trabalhando irritantemente!)! O cabelo sempre perfeito, a unha sempre feita, os filhos dela são tão lindos e o marido… Ah! O marido da mulher-maravilha! Que homem é aquele? Putz! A chefe imagina que se não tivesse que trabalhar tanto poderia conseguir um homem como aquele, ter filhos como os da mulher-maravilha, uma casa como a dela e até aprenderia a andar naqueles saltos. Meu Deus, como é que ela consegue se equilibrar naqueles saltos?

Então, de repente, por apenas um breve momento as duas se olham e são iguais. Ali, na porta do elevador, a mulher-maravilha e sua chefe terrena se olham e percebem que são iguais.

São duas mulheres pensando: QUEM FOI A IDIOTA QUE INVENTOU O FEMINISMO?!?!?!

Bjinhos e boa semana

(Imagem original de bbaltimore, uploaded on April 23, 2005 no FLICKR. Se vc é dono da imagem e não se sentir confortável com o uso me manda um e-mail que eu a retiro)


2 Respostas to “O Desabafo da Mulher-Maravilha”

  1. Amygha, isso é o primeiro de uma bela chick lit. Se eu fosse vc…

    [Reply]

    Maysa Reply:

    investir né? quem sabe…

    [Reply]

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